dezanove
segunda-feira, 9 setembro 2002não consigo dormir. a insónia devora-me há dias consecutivos. não tenho sono, nem nome. só vontade de sonhar contigo ou ver-te dormir iluminada por uma lua de morangos incandescentes. as dúvidas permanecem sossegadas no mesmo canto das palavras vagarosas. há silêncios que nos afogam numa inconstância trémula como se víssemos o nosso mundo dissolver-se como cera na madeira que pisamos no nosso poiso. os pássaros também parecem indecisos com o avançar da madrugada, no quase manhã à qual chegamos quase sempre atrasados. os sorrisos pouco valem, ao invés do grito mórbido que engole os fantasmas que dançam a morte, enquanto um casal bebe sossegado o primeiro café do dia. é muito difícil aguentar tantas horas sem dormir, sem ter medo de abraçar uma nova alvorada, entre pequenos barulhos de talheres enferrujados e banhos de naftalina certos de que é perigoso escrever canções sobre edifícios a arder, mesmo que o pai natal apareça daqui a três meses pela chaminé. os sentidos ingénuos absorvem os beijos em cereja e os nossos segredos congelados dissolvem-se nas natas e no leite condensado, até serem engolidas pelas labaredas das nossas vidas espremidas por uma agulha demoníaca. não tenhas medo. absorve os segundos no som de uma flauta transversal, não esquecendo as pequenas grandes inseguranças presas ao som do kazoo para perceber que o tempo ainda não passou apesar de mergulhares na solidão de quem há muito não escorrega em algodão doce. o sono quase não te deixa abrir os olhos, enquanto os meus permanecem arregalados - mesmo que sublinhados pelo negro das olheiras - assim como os dedos subtis que percorrem-te o corpo coberto por um lençol cor de rosa seda. mesmo que o sol não permaneça à tua espera, deixa os pensamentos escorregarem pelo baloiço dos nossos sentimentos e abre as janelas de panos húmidos e esclarecidos que te fazem transcender até ao cume da montanha de frutos que desenhamos com pincéis ensanguentados. as contradições não são a cura para a ressaca dos corações agnósticos. não tenhas duvidas em relação ao teu papel. enlaça os raios comprimidos desdobrando-os em canções desafinadas por palavras sinistras e rostos de madeira enrugada. a solução é a fuga descontrolada pelos areais, ou então, só mais uma canção sem refrão se o sono continuar a teimar em não chegar.
