amarelo dourado
domingo, 25 janeiro 2004aos seis anos pintei o meu primeiro azulejo. lembro-me das mãos douradas da minha mãe a coser, com cuidado, a bonequinha de carvão, como ela me explicava. entrava um sol, pela sala de aula, amarelo torrado. a minha mãe deu-me uma esponja laranja carcomida e esticou-me o desenho de um pássaro que eu fizera dias antes. comecei a picotar em torno do desenho. com a língua presa entre os lábios, calculava meticulosamente cada furinho. olhava distraída para a minha mãe, que preparava os quadradinhos brancos empoeirados sobre uma mesa, e o sol tornava-a dourada. lembro-me de a olhar dourada, com o cabelo preso, distraidamente, com dois ganchos grandes. lembro-me da sua bata comprida na qual eu enrolava dois dedos, tímida, enquanto andava ao seu lado pela escola. todos os dias, a caminho da cantina, havia uma colega ou outra que nos interrompiam o silêncio do caminho ritual. paravam a conversar e eu, envergonhada, ia enrolando-me na sua bata, prendendo os cabelos nos botões das suas saias. todos os dias, ao passar as portas altíssimas verdes da cantina, a senhora cozinheira saía por entre nuvens de sopas e vegetais salteados e vinha cumprimentar a minha mãe e perguntar pela "menina-pisca". era uma senhora muito redondinha, cabo-verdiana, que dava muitos abraços à minha mãe e falava alto e ria muito e fazia-me rir. depois voltava para as tempestades tropicais do arroz. quando acabei de picotar o desenho a minha mãe ajeitou-o sobre um dos quadradinhos empoeirados. passou-me a bonequinha de carvão para as mãos e, com a mão sobre a minha, batemos levemente com a bonequinha de carvão sobre os buraquinhos. o carvão ia manchando os buraquinhos, os meus dedos, pequeninos, o meu nariz, demasiado perto do desenho. os meus olhos sempre com demasiada atenção. tirámos as duas o papel sujo de cima do azulejo e o desenho lá estava, perfeito, em pequenos pontinhos pretos sobre um quadrado empoeirado branco. lembro-me de sorrir e olhar a minha mãe, enquanto eu, discretamente, limpava os dedos, negros, à barriga da minha blusa. a minha mãe contornou-me, entretanto, com frascos altos de água colorida, com pincéis de madeira compridos. lembro-me do dourado da sala e do seu sorriso, pequeno, quando, insegura, lhe disse que se calhar já ficava bonito só assim. sorriu, dourada, e saiu da sala. tive, então, de pintar. sempre tive medo partir ou estragar coisas e em pequena tinha mais. escorria, muito lentamente, o pincel no gargalo do frasco, no medo de entornar tudo para cima do meu pássaro por pintar, para cima da minha blusa suja de carvão, para cima da sala dourada onde a minha mãe ensinava, para cima do próprio sol. pintei o pássaro de azul céu, o bico e o olho de preto e pintei, no fim, pequenas folhinhas verdes nos quatro cantinhos do meu quadrado empoeirado. fiquei quieta à espera da minha mãe. achava que se mexesse uma perna a mesa ia temer e um frasco colorido ia cair no chão e partir-se e espalhar laranja ou vermelho ou verde e toda a gente ia reparar. ela demorava sempre. mas quando veio não trazia a bata e já não era dourada a sala. eram horas de ir para casa, explicou-me. o meu pedacinho de azulejo pintado ficara na sala, de onde a minha mãe o iria levar para um forno especial, para a tinta secar e nunca mais sair. saíamos da escola juntas todos os dias e ao passar o portão verde, de correntes a arrastar no chão, tornávamo-nos diferentes. dois dias mais tarde a minha mãe trouxe-me o meu azulejo. também ele ficou diferente. a mistura aguada da tinta azul estava estragada, disse-me ela. então, além de ter ficado cinzento clarinho, quebrou, também, a tinta, dando a impressão de volume e espaços entre a penugem do meu grande "pássaro-pisco". ficou diferente, a minha mãe escreveu o meu primeiro nome na parte de trás, e secretamente eu sei que ficou mais bonito assim, com penas de verdade, com a cor que ele escolheu para si. secretamente eu sei que foi ele que não quis caber num pedacinho branco empoeirado, nem na minha blusa, nem no bolso grande da bata da minha mãe, mas numa sala onde me lembro do sol entrar dourado.
[margarida]
