a luz nas tuas entranhas
sábado, 12 março 2005

como um alfinete que se confunde com o chão. lembras-te? de noite há montras luminosas e luzes na chuva e passos que escorregam. cá dentro há mãos que não encontram nada nos bolsos. quase mãos, quase mangas. confundo-me. um dia agrafei o polegar. quase que não me lembrava. posso tactear o polegar com os dedos que me restam. mas se eu me esquecer - e tu não o vires - não existe o meu polegar. não foram ainda inventados os agrafos. se eu não me lembrar. nenhum grito infantil instaurou nenhuma vírgula. ninguém veio a correr. eu não chorei. não te podes lembrar. uma vez deram-me beijinhos na nuca enquanto tocava o sangue de uma ferida. duas mãos, firmes, seguravam-me os ombros enquanto ardia o algodão na carne. penso que pontapeio alfinetes sem dar conta. ando descalça pelas várias divisões. ignoro a formalidade das salas de estar quando estou. encaracolo os dedos dos pés enquanto me esqueço de estar. escondo um pé no outro. desequilibro-me e caio. como um alfinete, confundo-me com o chão. piso-me. mas se eu não me esquecer - e tu não o vires - ninguém deixará de pisar. nenhum grito me denunciará. não podes ver. se chorar e me esquecer, não chorei. tu não me vês.

[margarida]


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