eu não oiço
sexta-feira, 15 abril 2005eu não oiço. não ouve ninguém o que eu oiço. eu não oiço. o meu quarto, o meu corpo. não ouve ninguém que cai pó das paredes. há fendas onde as mãos adivinham a calosidade do cimento, como escoriações. há pó em cima da pele. pó em cima dos desenhos. como os primeiros traços do mundo, aqueles que fora das margens desenharam um quadrado e, ao lado, um olho. aquele a que chamaram ”Cão”. e esse olho era da cor do pó. esse foi o primeiro olho que existiu. os primeiros traços do mundo no pó do meu corpo. eu não oiço. mas o pó também mora nos dedos, que se levam à boca, e essa foi a primeira boca que existiu. é aqui que mora todo o pó do mundo. eu não oiço. não houve ninguém que ouvisse. ama-me agora se queres ver. tu não me ves. eu não oiço.
[margarida]
