Fernando Santos vs. Camacho
quarta-feira, 22 agosto 2007

Resposta ao inquérito do Encarnado e Branco, blogue do meu grande amigo João Gonçalves.

Como é que sobreviveste a 15 meses de “Santismo”?
Era uma aposta, à partida, condenada ao fracasso, pois ser benfiquista está longe de ser uma condição suficiente para treinar um clube com a dimensão do Benfica. Independentemente de um percurso com 1 Campeonato, 2 Taças de Portugal, 2 Supertaças e 1 Taça da Grécia, Fernando Santos conseguiu ser o único técnico, em Portugal, a não vencer um Campeonato com Jardel no seu melhor – marcou 38 golos nessa temporada (1999/2000) -, como também conseguiu o feito de em três anos só vencer um Campeonato no FC Porto, iniciando, pela primeira vez e única até ao momento, um ciclo de mais de um ano sem vencer campeonatos dos “dragões” nos últimos 23 anos. O passado na Liga portuguesa anterior ao FC Porto, apesar de algum crescimento anual, não era o mais animador, e as passagens posteriores por AEK, Panathinaikos e Sporting confirmaram as limitações evidenciadas no comando técnico do FC Porto: alguns bons períodos, com ciclos interessantes de jogos consecutivos sem perder, mas pouca tendência – misto de incapacidade, postura pouco confiante e indecisões relevantes – para vencer em momentos importantes e decisivos. No fundo, a imagem dos 15 meses – 12 teriam sido mais do que suficientes – de Fernando Santos ao serviço do Benfica, e, certamente, aquilo que o seu futuro como treinador lhe reserva.

A notícia da saída de Fernando Santos fez-te vibrar mais do o golo do Petit de cabeça(!) no Bessa?
Independentemente de se tratar de uma excelente notícia para o futuro do clube, uma vitória do Benfica, no Bessa, diante do Leixões, é (ou seria, neste caso) bem mais importante que a saída de Fernando Santos do comando técnico do clube. Primeiro porque não seria impeditiva para a consumação da saída de Santos (Heynckes saiu após uma vitória) e daria mais 2 pontos que, por exemplo, foram determinantes na perda do Campeonato anterior e na eliminação da Liga dos Campeões na última temporada.

Apesar de tudo Fernando Santos é benfiquista e por isso merece ser feliz. Achas que ele devia tentar contrariar o ditado “Santos da Casa Não Fazem Milagres” noutro espaço que lhe é caro como o Centro Desportivo de Fátima na Liga de Honra?
O Centro Desportivo de Fátima tem um bom treinador – Rui Vitória, que, curiosamente, passou pela formação do Benfica, e soma 3 triunfos consecutivos em 2007/08. Assim sendo, Fernando Santos terá que esperar por outra “paróquia”.

Em que nomes apostas para melhores reforços desta época?
Com 3 ou 4 reforços a chegar nos próximos dias e que deverão constituir uma verdadeira mais-valia para o actual plantel a pergunta é algo precoce. Relativamente aos jogadores já contratados, Oscar Cardozo deverá ser o principal reforço e está a confirmar-se como tal – é a única aquisição que se afirmou como titular indiscutível no imediato -, apesar das limitações físicas que o impedem de jogar no máximo das suas capacidades. Caso Gonzalo Bergessio consiga atingir o nível evidenciado no Campeonato Argentino, o que está ainda bem longe de acontecer, também poderá ser uma importante mais-valia para o Benfica, até porque pode preencher várias posições no ataque. Os jovens Angel Di Maria e Fábio Coentrão poderão retirar importantes dividendos desta mudança de comando técnico, que irá projectar mais o jogo pelos flancos, entre o 4x2x3x1 e o 4x4x2 clássico, contrariando o 4x4x2 centralizado de Fernando Santos. Contudo, necessitam de tempo e espaço para se adaptarem a um clube com a dimensão do Benfica e ao facto de não poderem ter o protagonismo que possuíam nos seus anteriores emblemas, necessitando, com isso, de adquirir um maior sentido colectivo.

E que jogadores gostarias de ver contratados até ao fim do mês?
Atendendo ao nome do novo técnico e aos seus esquemas tácticos preferenciais parece-me que a aquisição prioritária deverá ser a de um extremo direito de qualidade insuspeita e que se afirme imediatamente. As chegadas de um defesa-central e de um médio-centro com capacidade de construção também são importantes. A de um novo avançado-centro não me parece tão prioritária, mas será igualmente bem vinda.

Camacho é a melhor aposta, ou preferias o regresso de Trapattoni? O italiano perdeu a Taça mas foi campeão…
O regresso de Jose Antonio Camacho parece-me ter sido devidamente planeado, mas tardiamente apresentado. É uma aposta que vai de encontro ao desejo da maior parte dos associados, atendendo também à indisponibilidade de Sven Goran Eriksson, com que forma a dupla de técnicos mais consensuais no universo “encarnado”. Se Eriksson venceu 3 campeonatos em 5 possíveis e levou o clube a duas finais europeias, Camacho apenas ganhou uma Taça de Portugal, o que não justificaria, à partida, tamanho apego por parte dos associados que “condenaram” no passado treinadores vitoriosos. É certo que o seu ano e meio à frente do Benfica coincidiu com o período áureo do FC Porto de Mourinho, e que os 74 e 75 pontos alcançados em 2002/03 e 2003/04 seriam suficientes para ser campeão em 2004/05 ou 2006/07. E é um pouco essa a resposta que Camacho terá que dar, confirmando o “mito” e a aura de conquistador, finalmente com triunfos relevantes como treinador.
Em relação a Trapattoni está bem no Salzburgo, onde procura colocar o clube na fase de grupos da Liga dos Campeões e repetir o título da temporada anterior, algo que se afigura complicado atendendo ao crescimento competitivo dos rivais. O seu trabalho no Benfica finalizou com o quebrar do longo jejum de títulos, maximizando de forma inteligente os parcos recursos à sua disposição.

Qual o melhor jogo do Benfica de Camacho na primeira passagem do espanhol pela Luz?
O mais espectacular talvez tenha sido o 6-2 em Setúbal, frente ao Vitória orientado por Luís Campos, com 3 golos de Simão Sabrosa. Mas mais do que grandes jogos, o Benfica de Camacho destacou-se por algumas vitórias importantes: as duas de Alvalade, a da final da Taça diante do FC Porto e a do trágico jogo de Guimarães acabam por ser algumas das mais marcantes.

Vamos ser campeões com quantos pontos de avanço?
Bastará um ponto de vantagem, mas é um objectivo difícil para esta temporada atendendo às vicissitudes ocorridas nas últimas semanas, que levam o Benfica a iniciar uma época em registo de pré-época, logo com um atraso significativo em relação aos rivais FC Porto e Sporting. Passará e muito por Camacho impedir que o Benfica perca mais pontos nesta fase inicial, em que terão que ser criadas rotinas em competição, como também chegar à fase de grupos na Liga dos Campeões, algo que não conseguiu em 2003/04, perante uma Lazio bem mais poderosa que o modesto Copenhaga. A próxima jornada de Liga, atendendo ao clássico, poderá permitir recuperar no imediato o atraso pontual após o empate da 1ª jornada, o que poderá ser um excelente mote para os restantes 28 jogos.
Numa análise aos números de Jose Antonio Camacho como treinador do Benfica necessitará de uma maior regularidade nos confrontos com os “grandes” – 1 ponto em 9 possíveis frente ao FC Porto ; 2 vitórias em Alvalade frente ao Sporting, mas 2 derrotas na Luz – e quebrar algumas “malapatas” com clubes médio-europeus: apenas 1 vitória em 4 jogos com o Boavista ; apenas 1 vitória em 3 jogos com a União de Leiria ; e os dois empates caseiros frente ao Moreirense, então treinado por Manuel Machado, actual treinador da Académica. A redução de 18 para 16 clubes também parece não ajudar muito: em 2002/03, Camacho somou 12 pontos em 12 possíveis com os classificados entre o 15º e o 18º lugar ; em 2003/04, Camacho somou 22 pontos em 24 possíveis com os classificados entre 15º e o 18º lugar.


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